domingo, 30 de dezembro de 2012

Ela.


Chorou dois dias seguidos e quando acordou, limpou o sal depositado no canto dos olhos, avaliou o inchaço causado nas pálpebras e lavou a cara com água fria. Passou a base para minimizar as mazelas das últimas noites e alimentou o corpo que não comia desde que começara a chorar. Era uma manhã fria, uma das últimas de dezembro e estava na altura de tecer caminhos como fazia sempre no final de cada ano. Pegou na caixa de costura e avaliou a malha grossa que há muito compunha um cachecol interminável. Era ali que, quando precisava, se punha a pensar. Manuseava, tecendo resoluções, tricotando hipóteses e bordando ilusões. Nunca chegava ao fim. Hoje segredaria à lã com muita força. Falava-lhe como quem fala às plantas querendo falar a alguém querido mas não tinha ninguém com quem falar. A cada fiada de lã estava mais sozinha e já não ouvia a voz humana que a rodeava há muito tempo. Desejava o dia que o Carteiro lhe levaria cartas mas ninguém lhe escrevia porque há muito que cortara relações com o mundo. A única pessoa que a via mais a miúde era o rapaz da mercearia mas nem com esse ela se ligava. Abria-lhe a porta muito rápido, o suficiente para deixar passar o saco das compras, sem nunca o olhar, esticando-lhe o dinheiro já pela fresta da porta. Era muito tímida. Sabia exatamente a hora a que o rapaz chegaria, ele era muito pontual, e mal ouvia as rodas da bicicleta a deslizar na gravilha o coração batia tão forte que parecia ser um pássaro batendo violentamente contra as grades da gaiola. As suas faces avermelhavam e pareciam dois morangos enormes e sumarentos mordidos a meio e esquecidos a manchar o último nevão antes da primavera.

Era uma mulher alta e esguia mas tão embutida em si que não parecia maior que uma criança de 10 anos. Os seus cabelos escorridos muito escuros tapavam-lhe o corpo parecendo querer empurrá-lo para o chão. Era jovem, apesar do tempo ter passado por ela três vezes. Quem a olhava via sobretudo uma pessoa cansada… Poucos ousavam acha-la triste. Parecia-lhes mais rezingona e mal-educada e, por isso, poucos desejavam compreender o que se passava dentro dela.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Despedida - Silencios(a)mente


É tanto o silêncio e eu (já) não te consigo ouvir.

A CAMA. A CAMA. NÃO. O QUARTO. A TORNEIRA. A CAMA. PING. PING. PING.
NÃO. O QUARTO. O SOALHO. A CAMA. NA CAMA. NA CAMA. A TORNEIRA. AS CHAVES. NA PORTA. NÃO. NÃO. TU. A CAMA. NA CAMA. EU. EU. EU. Vens? Não vens? Mais logo? Amanhã? Hoje? Ainda? Às 2h? Às 3h? São 6h da manhã e ainda te espero para jantar. NÃO. Para ir ao café. NÃO. Ao cinema. A última sessão. NÃO. NÃO. Pára. Pára. Já CHEGA. Já não há sessão. São seis horas da manhã e ainda te espero.

Para nada.

E tu? Nada.

NÃO. NÃO. NÃO. TU?

Nada. Silêncio (enquanto balão esvazia)

Voltas. Um poema. Uma canção. Meia dúzia de palavras, as suficientes. Muitos sorrisos. Olhos nos olhos e silêncios. Dos bons. Dos que se conseguem ler. Cheios.

Mas tu és como as marés. Quanto mais enches, mais esvazias e vais. Na boleia de um camião de lixo. Onde deitaste fora os meus restos.

Eu fico a Encher. Encher. Encher. Encher. (enquanto o balão enche). Engulo para guardar.
 
(texto da performance Despedida inserida no ciclo de performances Silencios(a)mente, versão original Agosto 2011)

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Tempo. Todo o tempo. Mau tempo. Mau tempo no canal.
Quando não surges e te espero,
faço o quê ao desespero?

Quando surges e não te espero,
será que és tu que quero?

Não são as rimas banais
que anseiam por sinais

Não sou eu.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Privatize-se!

Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos (...)
 

José Saramago - Cadernos de Lanzarote III pp.148



...e privatizem-se o amor e a paixão. Privatizem-se as festas na cabeça, privatizem-se os abraços. Privatizem-se os passeios de mãos dadas e os silêncios. Sim os silêncios. Os cúmplices e apaixonados. Os amedrontados. Os tímidos. Privatizem os primeiros beijos, os calafrios nas barrigas das pernas, as borboletas na barriga. Privatizem o sonho e a vontade de viver. Privatizem tudo o que de bom há no mundo que a mim já não me importa.

domingo, 7 de agosto de 2011

Adaptação anti-epicurista de Vem Sentar-te, Lidia, à beira do rio. Porque ler também é mexer nas palavras.

Levanta-te daí, da beira do rio.
Que eu não sou Lídia nem tu Ricardo Reis!
Por isso, não vivamos na espera.
Enlacemos as mãos e cansemo-nos,
Rememos por este mar contra o Fado, que
As Tágides nos ajudarão e
De certo encontraremos,
Aquele lugar onde os deuses brincam, nus, como crianças adultas.
Aperta-me as mãos nas tuas!
Pois vale a pena cansarmo-nos por
beijos,
abraços,
carícias.

Podemos manter o silêncio daqueles que apenas vêem passar.
Mas amemo-nos! Sem medo!
Vamos brincar:
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume intensifique o momento -
Este momento em que sossegadamente cremos em tudo e arriscamos.
Em segredo,
Sem nada dizer,
Põe-me uma flor das que colheste no cabelo.
Uma flor qualquer daquelas que eu não apanhei.
Ou uma de papel, dessas que fazes com os dedos trémulos
enquanto o cigarro se consome lentamente no canto da boca. Em silêncio,
Sem nada precisar(mos) dizer
Eu vou entender que não temeis mais viver nesta regata.
Arrisquemos!
Não temeremos
o calor de quando os nossos olhos se encontram,
a ternura que toca os nossos lábios,
ou a magia que nos rodopia
quando à luz da lua dançamos.
Arrisquemos!
E Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás na memória, lembrando-te assim
a remar comigo num alguidar pelo Tejo.
Meros Pagãos, Semi-Deuses guerreiros que lutam contra a passagem do rio,
Com flores no regaço.


Não quero ser-te suave à memória.
Quero ser intensa em ti.

domingo, 3 de abril de 2011

bairro de gerações.



“...a ti minha única neta, Gabriela, que gostas de surpresas, de coisas antigas e estás em tempo de começar a viver fora do ninho, pertence a casa da avó Laura, no bairro que tanto gostas e que não sabias existir”.

E assim descobri que agora tinha uma casa no bairro alto.
Entrei nesta casa bafienta e perdida no tempo pela primeira vez. Tantas vezes olhei para este prédio derreado como tantos outros, no bairro dos copos com os amigos e do “quem me dera morar aqui” e jamais imaginara que, ali dentro, uma parte dos meus antepassados minguava ainda.
Agora que ao bairro regresso, de dia, para conhecer o que me foi dado a pertencer, sinto-me a invadir vida que não me pertence. Tudo deve, calculo eu, permanecer no mesmo lugar desde que a avó Laura morreu. Não compreendo como tantos anos se passaram e a minha avó ou mesmo a mãe nunca mexeram em nada, nunca fizeram menção de fazer existir esta casa nas nossas vidas. Descobri-a agora porque a avó Isabel ma deixou em testamento. Os naperons em cima da mesa da sala, os sofás em tweed com pé de palito a poltrona de pele verde garrafão, o papel de parede desbotado e a cair aos pedaços fazem-me sentir uma certa repugna em mexer nestas coisas protegidas pelo pó e pelas sólidas teias de aranha. Ao fundo da sala, por baixo de uma arca grande jugo ver um rádio semi-escondido. Dirijo-me até ele mas rapidamente o esqueço para me debruçar sobre esta majestosa arca. A curiosidade de descobrir o que guarda e o desejo de conhecer quem foi esta avó Laura é mais forte do que o pó deixado pelo tempo e o fecho podre facilita-me o desejo. Consigo abri-la sem dificuldade, entre papéis, óculos obsoletamente trendy e outras bujigangas encontro varias fotos e cartas. Entre muitas, uma porém chama-me à atenção. Encontro-a protegida por um pano de flanela a fazer de capa. É acompanhada de uma carta escrita a tinta numa letra cuidada mas melancólica e arrastada que deixa antever a tristeza confirmada pelos borrões. Tento decifrar esta letra em tinta acastanhada pelos anos e leio:


Querida Neta, esta foto foi tirada no dia em que a avó fez 70 anos. Tu e os teus pais vieram almoçar comigo e tu ficaste a passar a última noite com a avó. Deixei-te brincar na rua porque apesar de ser Novembro estava um ameno dia de sol. Na foto estás tu e o Joãozinho, brincam. Não sei se por o João ser o neto do António, tenho uma ternura especial por esta foto. Escrevo-te a ti esta carta, sem saber se serás tu a lê-la mais tarde, mas por saber que já terás a distância necessária, que a tua mãe não teria, para a poderes compreender. Talvez seja, até, o novo dono da casa a ler esta carta mais tarde e nada disto lhe fará sentido, somos apenas personagens com rosto mas sem vida e pouco importaremos ao novo inquilino. Perguntarás quem é o António, atenta na foto. Em segundo plano, aparece um senhor a assar castanhas e, atrás dele, um vulto. Esse vulto é o António. O grande amor da vida da avó. Apaixonei-me por ele com pouco mais de 15 anos. Ele tinha cerca de vinte anos, era um jovem de estatura média alta, apesar de na foto aparecer já mirrado, e bem-parecido embora de famílias humildes mas descobertas. Contra o meu pai e os meus irmãos vivemos um amor tórrido que quando foi descoberto e denunciado pela minha barriga deixou o António com as duas pernas partidas e levou-me para um convento em Serpa longe dos olhares dos vizinhos curiosos. Alguns meses depois nasceu o meu filho mas a tristeza que eu vivi durante a gravidez, dizia a irmã Maria, fez com que ele não vingasse e partisse dois dias depois de ter visto o mesmo sol que te iluminava a tarde nesta foto. Assim que me restabeleci fisicamente fui colocada no altar ao lado de um distinto senhor, funcionário público de bom cargo e potencial que não se importaria de ficar comigo apesar da minha condição. Como se um homem solteiro de quase 50 anos fizesse um favor por se casar com alguém. O meu pai havia querido afastar-me do António e a este foi dito que eu teria ido de férias e conhecido o meu novo marido, mais tarde fiquei a saber que lhe chegou uma carta que embora em meu nome nunca havia ter sido escrita por mim, na qual eu desvalorizava os seus e os meus sentimentos, levando o António a procurar outra mulher. Na mente ficou sempre cravado o luto do amor de meu António e do nosso filho e a impossibilidade de, na clausura de um casamento, voltar a encontrar o meu amor. Os anos foram passando calmamente, pouco depois do nascimento da tua mãe o teu avô deixou de se preocupar com as minhas obrigações de esposa e voltou às companhias das noites de homem solitário. Eu atarefava-me a educar a tua mãe e a conter o meu desgosto no quadrilê de ponto cruz ou nas bainhas abertas do lençóis de linho, que me apressava a fazer, qual Penélope esperando o seu Ulisses. A vida foi correndo, a tua mãe cresceu tornou-se uma mulher, casou feliz num casamento desejado e veio viver para Lisboa. Ao contrário do que o teu avô desejava não tivemos mais filhos, o meu corpo ainda hoje de aspecto juvenil encarregou-se de envelhecer a minha fertilidade e impediu-me de ter filhos muito cedo. Com o avançar da idade fui me acostumando à ideia de que nunca mais veria António, não sabia se era ainda vivo ou se já havia falecido. Nunca mais o vi nem havia tido notícias dele, até ao dia em que decidi vir viver para esta casa, após a morte do teu avô, há bem pouco tempo. Encontrei-o por acaso quando no primeiro dia que aqui pernoitei, habituando-me ao conforto de viver sozinha, decidi ir comprar o pão fresco para o pequeno-almoço. Ali estava ele, ao balcão da padaria, não me perguntes como ao fim de tantos anos, aquele homem mirrado me fez crer ser meu António confirmado quando, ao ficar de frente para mim me reconheceu também. Olhou-me zangado e saiu. Segui-o, chamando-o pelo nome, e apesar da minha idade senti-me uma jovenzinha. António disse não me conhecer com os olhos revoltos de lágrimas rancorosas e quando a sua mulher chegou à porta, ao ouvir o alarido apenas consegui dizer que me havia enganado e que aquele não era o António que me tinha parecido inicialmente. Mentira. Era ele, o meu António que agora ao passar de tantos anos não me queria falar e que direito tinha eu de, entrar na vida daquele homem e fazer como se todas estas décadas fossem apenas minutos de distanciamento? Que direito tinha eu de lhe contar que havíamos tido um fruto do nosso amor para logo depois lhe roubar a ideia do filho varão que eu havia mordo de tristeza? Pensava que um dia conseguiria falar com o meu António mas durante dois meses sempre que o vislumbrava não ouvia a sua voz e fui-me contentando com este amor decorado com antónimos, velho e platónico. Esta foto em que apareces é a única recordação que tenho dele até porque dias depois ele partiu para o hospital e não voltou, febres disseram e eu fiquei sem o meu António. Agora que o perdi pela terceira vez depois de achar que o já havia perdido há anos sinto não aguentar mais, aquilo que me parecia ter sido a melhor opção, viver aqui para estar perto de ti, minha neta e da minha filha, revelou-se agora um sufoco insuportável. Hoje vou partir também e espero encontrar o meu António.



Depois de ler esta carta, destinada à minha mãe fiquei atónita. Deparo-me se agora lhe devo contar deste encontro com uma bisavó apaixonada. A minha mãe sempre me falara desta sua avó de uma forma triste de quem não percebia como tinha perdido a avó dos pequenos-almoços de pão fresco e lençóis de linho. E eu vim conhecê-la no bairro alto, bairro do amor de Jorge Palma e dos desamores da minha bisavó. Num desencontro de avós e netas e cartas com destinos trocados.

terça-feira, 29 de março de 2011

Bela Serrana fala ao trovador.

Madrugada alta e a luz da lua, entrando pela janela testemunha de que não durmo tranquilamente há várias noites. Inquieta e febril, revolto o corpo por entre os lençóis macios e anseio calidamente por ti. O silêncio da noite sabe dos meus gemidos tímidos e deixa-me ouvir um cantar distante que sobe ao fundo da rua. Devaneio se serás tu que te esgueiras até aqui na possibilidade remota de me ter pelo vidro da janela. Temendo ouvir estes meus desejos recônditos, cubro a cabeça com a almofada de linho branco mas a melodia continua a subir e a embriagar o meu quarto. Envolvo o corpo desnudo e trémulo e espreito pela brecha da janela. Aí estás tu, em desejo e osso e carne. Chamas por mim baixinho e sabes que te espreito, a medo de ser descoberta. A clausura não me permite mais do que sonhar-te em mim embora gostede te ver arriscar. Abro a janela em surdina e atiro-te um lenço com palavras lânguidas que evocam a avidez que será mais tarde consumada. Sabes que não posso descer e que não podes subir.

Desejo-Te.


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Carta Avós

Nas últimas vezes que entrei na casa senti uma catadupa de recordações. Lembranças boas num sitio que durante muito tempo vivi, não me permitindo contudo, perceber a sua importância na minha vida.
Começo por ir ao quintal, a primeira coisa que faço quando entro.

Ainda me custa ver que a laranjeira central foi roubada, contra a minha exposta vontade, restando apenas a recordação de, uma vez, talvez a única vez que isto aconteceu, ter andado a correr à volta dela num jogo edipiano de apanhada.

Agora, os pardais que têm dormido na outra laranjeira que ali jaz sozinha fazem-me relembrar o tio. Nunca acontecera ver o chão sujo como agora e divago sobre a razão. Relembro, então, um tio austero que não permitia que os pardais ali vivessem. Agora, parece que eles sabem que a casa está mais abandonada e talvez se sintam à vontade para ocupar a laranjeira em segurança. Apesar de adorar pardais que se aninham, ao final da tarde, nas copas das árvores, sinto-me triste. É a confirmação de que morreu uma parte de mim.

É incrível como um sítio pode ser tão cheio de recordações. Para qualquer canto que olho relembro situações que me fazem, por sua vez, lembrar outras: A festa dos meus 6 anos, o primo que apareceu um dia e que me ensinou a saltar à corda, e entre tantas outras, uma que me surge quando Olho a janela da minha casa. Durante uns tempos a janela, que dava para o teu quintal, esteve sem vidro e era o intercomunicador que usava para falar contigo. No filme da minha festa de 6 anos que fizemos aqui no quintal oiço a tua voz a contar a alguém que eu chamava-te pela janela enquanto tu preparavas a prenda que me ofereceste e que ainda hoje eu guardo (também me lembrei-me dela agora: um postal com um palhaço em marca de água na parte de trás e à frente uma rosa, não me recordo se de alguma roseira que tenha existido aqui no quintal, ou se de uma roseira que ainda existe na casa dos meus avós), imitas-me no vídeo "Oh Tiiiiiiia, oh Tiiiiiiiiiiiia"... Mas se tu hoje fosses viva e a janela ainda estivesse sem vidro e eu me pudesse empoleirar nela, não seria de Tia que te ia chamar. Passava muito tempo contigo, aqui em casa assisti aos episódios da Pedra sobre Pedra que dava antes de jantar, hora que o teu irmão te vinha visitar. Já nem me lembrava que o Avô cá vinha todos os dias conversar. Agora que me lembrei relembro também de um bolo que a minha mãe fez uma vez e que nós não gostamos, bem, talvez tu tenhas gostado porque eras gulosa e gostavas de tudo, mas que o avô adorou e pedia religiosamente quando chegava, não desonrando a receita. Gostava quando me deixavas ver desenhos animados aqui em casa, no canal dois, até à hora do tio chegar da tapada, nesse momento acabavam-se estes privilégios e tínhamos de ver o telejornal. A essa hora eu já implorava para que a minha mãe chegasse porque, em seguida, veriamos o jornal das 22h, na rtp2. Na altura estava pouco preocupada com o que se passava no mundo. Adorava brincar no quintal, em cima do poço montava uma cozinha de brincar digna de um chef de cozinha e aos sábados, quando o tio tomava banho, eu adorava estar ali, a tentar chegar à janela para espreitar. Cuidavas dele com uma dedicação maternal, que hoje em dia me faz reflectir, mas hoje não quero pensar em vocês como um homem e uma mulher com as suas histórias individuais que me fazem especular e divagar. Hoje olho-vos como quem vos recorda como duas das pessoas que mais importantes foram na minha vida.

Não só lhe davas banho como lhe fazias o chá com folhas de tília compradas numa casa em Vila Franca que ficava, ou fica ainda, perto do meu pediatra. Também cortavas o chocolate que trituravas à mão, numa máquina igual à que a minha mãe usava para fazer esparregado. Depois, derretia-lo e misturavas com água e leite Molico, porque o tio não gostava de lácteos. Dizia ele: "Leite nem o cheiro" e contava uma história de como em pequeno teve de beber muito e enjoou, mas adorava o puré da minha mãe, o arroz doce da Eglantina e pudim...

O Leite em Pó foi deixando aqui em casa caixas azuis que usavas para guardar coisas, eras muito arrumada, muito cuidadosa, andavas sempre a colocar tudo no seu devido lugar, detestavas migalhas que andavas sempre a apanhar, aproveitavas tudo, inclusive as tais caixas do Molico. Lembro-me de uma vez estar a fazer os trabalhos de casa aqui contigo e de precisar de um afia e tu ires à caixa buscar um. Recordo-me que na altura achei esquisito tu teres um afia para me emprestares afinal de contas não escrevias muito, não eras professora e eu achava que eras demasiado velhinha para teres um afia do tempo em que estudavas mas, a verdade é que ainda hoje encontrei o afia verde lá na gaveta e com ele duas borrachas velhas e redondas do tamanho de um botão, moldadas de estarem gastas.
No Natal também me lembro sempre de ti. De ires ao sótão, e tenho sempre a sensação de que foi algo que te ocorreu apenas na altura, buscar um grande alguidar de barro, que ainda hoje existe, e de nele bateres uma massa de sonhos ou filhoses ou bolinhos de jerimu, não sei o que eram, apenas sei que sabiam a aguardente e que eram os melhores de todos, de todos o que comi nesse ano. E nos anos seguintes também. Lembro-me de amassares, de tapares com um pano e de dizeres que agora íamos deixar que  a massa crescesse durante uma hora, e eu tinha a idade em que uma hora é uma eternidade, e foi contigo durante essa hora que aprendi que a massa pode crescer ao ar. Sempre que como agriões recordo-me de ti, recordo-me de uma sopa que fazias e que eu dizia que "sabia a batom" e que tu te rias com esta patetice, que jeito uma sopa saber a batom. Adorava desapertar-te o laço do avental e ainda me lembro dos nomes carinhosos que me chamavas quando o fazia. Na verdade acho que ainda consigo, se me esforçar um bocadinho, recordar a tua voz.

Tinha uns ciúmes imensos de ti, eram imaturos e de quem sentia que a mãe era roubada por uma irmã muito mais velha, mais velha até que a própria mãe, e só há pouco tempo percebi que foi aquilo que proporcionou estes ciúmes que fez também com que entrassem, tu e o tio, na minha vida de uma forma tão presente.

Às vezes é assim, apercebemo-nos tardiamente de quão importantes foram algumas pessoas para nós. E eu apenas percebi quem era o tio para mim, quando amiúde regressava aqui. Ele dizia-me a tremer como que com o corpo embargado de lágrimas que os olhos não transpareciam o quanto gostava de mim e eu só percebi quando já perto da sua partida me recordava de conversas que tinha tido comigo, ao seu jeito falou-me da vida, de orgulho e mostrava-me o amor de avós, aquele que desinteressado e verdadeiro só senti de vocês. Ainda tive tempo de lhe retribuir o carinho, ficando ao seu lado quando os fios se desprendiam. Mas tu, tu foste embora sem eu ter percebido que isso ia acontecer e entristece-me profundamente saber que me foste roubada tão cedo. Saudades. Tia-Avó Maria.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O passarinho e a menina.



















Era uma vez um passarinho que um dia, enquanto procurava comida, descobriu uma linda árvore. Era frondosa com muitas folhinhas, umas a nascer e outras já adultas, de muitos tons de verde diferentes. Era espaçosa e fresquinha sem deixar de ser aconchegante e, além disso, tinha umas bagas sumarentas parecidas com as gomas coloridas de uma loja que ele tinha conhecido em tempos, numa cidade por onde tinha passado.

O passarinho começou, então, a ir todas as manhãs até àquela árvore onde descansava, se alimentava e cantava. Reparou, num desses dias que, atrás da árvore, havia uma casa e que um dos ramos ficava pertinho, quase encostado, de uma das janelas do segundo andar. Saltando de ramo em ramo, como se estivesse a saltar num trampolim, o passarinho chegou à janela. Ao espreitar para dentro da casa viu uma linda menina de trancinhas escuras sentada à frente de um piano. O passarinho cantou de alegria ao ouvir o som das teclas do piano. Cantou, cantou e em alguns minutos a menina estava à janela surpreendida pelo canto do pássaro. Ficou a ouvir aquela melodia diferente das dos outros passarinhos, enquanto ele trinava de alegria.
Ambos sentiram que tinham no outro companhia para cantar.
Daquele dia em diante o passarinho e a menina foram-se vendo todos os dias. O passarinho passava na árvore e mostrava os seus melhores encantos. A menina gostava muito de o ouvir. Ouvia-o cantar e falar do seu dia, dos hábitos, dos gostos, dos medos e dos sonhos, sabia onde ele estava, onde morava, onde o podia encontrar.
O passarinho vivia radiante por poder partilhar a sua vida com a menina. A menina por sua vez, gostava de estar com o passarinho mas não o dizia, adorava a sintonia que havia entre eles, os momentos em que conversavam e discutiam os seus sonhos e ideais mas pouco o demonstrava, isolando-se para não se deixar contagiar. Fazia por vezes, o passarinho sentir-se mal, era ele que a procurava, era ele que queria saber dela e que mudava o seu canto para agradar à menina, tentando manter a harmonia entre a melodia dos dois.
A menina nada investia no canto conjunto dos dois. Gostava muito de tocar enquanto o pássaro cantava mas jamais o dizia. Franzia o sobrolho, encolhia os ombros e não dizia nem uma palavra sobre como ele era importante para ela. Ele estava inseguro. Achava que outros pássaros cantariam melhor que ele e desvalorizava a sua prestação. Diminuía-se a cada dia que passava.

Um dia a menina foi convidada a tocar numas cidades que ficavam muito longe dali e, como ia ficar muito tempo longe, teve medo que o passarinho não conseguisse ficar sem cantar com alguém, se fosse embora e ela não o voltasse a ver. Chamou-o e deixou no ar a magia de como ele era importante para ela, disse-lhe que um dia o passarinho poderia ir com ela, experimentar cantar noutros sítios, onde não havia passarinhos como ele e que até poderiam fazer música, juntos. Queria que ele ficasse ali, pertinho dela, O passarinho aconchegou-se com as demonstrações carinhosas da menina, achando que seria daquele momento em diante que ela lhe daria o devido valor. A menina foi então na sua viagem e o passarinho ficou, desejando muito, muito, que a menina voltasse. Todos os dias ia até à sua árvore e recordava o semblante da menina sentada à frente do piano. As conversas, as partilhas e todas as idealizações que lhe enchiam o peito plumoso. Em breve chegaria o Outono e, depois, o Inverno e o passarinho teria de decidir o que era melhor para si. A menina não dava notícias e ele, aninhado no parapeito da janela, imaginava-a a tocar as teclas do seu piano, a aprender novas músicas e a preencher vivamente as cidades por onde passava. Ansiava que ela voltasse, lhe contasse as novidades, que finalmente pudessem, juntos, fazer música. Um dia o passarinho viu luz na janela da casa da menina e percebeu que ela tinha voltado, ficou um bocadinho triste por ela não ter dito nada mas desculpabilizou-a, como normalmente fazia quando ela o magoava. Bateu à janela e ficaram a conversar, o passarinho sentiu-se completo com a chegada da menina, viveu com emoção todas as novidades que a amiga tinha para lhe contar e cantaram juntos como ele tanto queria que acontecesse. Com o passar do tempo, o passarinho foi sentido a menina distante, ao mesmo tempo que lhe dizia que adorava a companhia dele, não o cuidava, nem se preocupava se ele não aparecesse. O passarinho foi entristecendo, sentia-se pouco especial, afinal de contas a menina de quem ele tanto gostava pouco queria saber dele, talvez ele não fosse um pássaro tão incomum, tão merecedor de atenção. Perdia a vontade de comer e por vezes tinha vontade de não mais ver a menina, idealizando que esta sentiria a sua falta. Mas logo essa vontade se extinguia com o medo de perceber que ela não viria atrás. Observando outros pássaros percebeu que todo o carinho que julgava existir entre ele e a menina não era assim tão acolhedor, sentia-se vazio, preso a uma menina que nem de perto nem de longe cuidava dele como os amigos são capazes de se cuidar. Percebeu que talvez devesse mostrar à amiga que não se sentia confortável. A menina desvalorizou, sentiu que o passarinho exagerava. O passarinho magoado referiu-lhe que se sentia pouco querido e avisou-a que talvez um dia se fosse embora de vez e a menina não mais o ouviria cantar. Magoado saiu de perto da menina. A menina sentiu falta do passarinho mas foi incapaz de o procurar, pensava que mais tarde ou mais cedo ele voltaria. Mas não voltou. O que a menina sentiu? Ninguém sabe. Mas o passarinho percebeu que merecia ser ouvido por quem desse mais valor ao seu gorjear.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Hoje Não te vi em Babilónia.

A pensar em algumas coisas lembrei-me do título do livro do António Lobo Antunes, Hoje não te vi em Babilónia e saiu-me isto:

Saía do escritório em direcção ao café forte que me aconchegava nos últimos minutos da minha hora de almoço, ia um pouco ansioso. Era num centro comercial não muito grande, envelhecido e, segundo se dizia há alguns anos, perigoso. É certo que havia ali próximo diversas pastelarias onde poderia sentar-me e acompanhar o café com um colorido e exuberante bolo, daqueles ditos de fabrico próprio e, no entanto, iguais a tantos outros em outras pastelarias de diversos pontos do país, mas aquele centro comercial entrepunha-se no meu caminho desde que mudei de emprego e rumei a um escritório na Amadora. Posição esta que se intensificou quando há um par de meses, quando questionado por um colega acerca das razões que me levavam a ir religiosamente ali, dei contigo a dobrar umas peças de roupa numa das primeiras lojas. Fiquei estático, não sei se era o sorriso satisfeito ou o vigor com que dobravas camisola sobre camisola que me prendeu a ti. Disfarcei e, embora sentisse que não tinha já idade para estas coisas, senti as maçãs do rosto acalentarem-se quando olhaste na minha direcção. Avancei em direcção ao meu colega que havia parado alguns metros à minha frente. Desde então afastei todas as hipóteses de abandonar o Babilónia.

Todos os dias, próximo da hora certa ali passava e te sorria.

"Amanhã será o dia em que te convidarei para um café" - pensei ontem.

Mas, Hoje, não te vi em Babilónia.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Dois lados de uma mesma história.

ELE
Certo dia encontrei-A, estava sentada num muro do miradouro do monte com as pernas voltadas para Lisboa e os chinelos a seu lado, descalça balouçava as pernas como quem ganha coragem para se atirar para dentro da piscina. Pensei por momentos se o faria mas achei que era forte de mais para tamanhinha decisão.Sentei-me ao seu lado e sorri-lhe quando virou a cara na minha direcção mas não tive resposta, o que raramente acontecia.
Baixou os olhos e apercebi-me de que não deveria estar muito bem. Deixei-me ali, em silêncio, consumindo o tempo à velocidade possível no momento, sem antecipar o que quer que fosse.
Ela continuava de olhos cravados nos joelhos e neles navegavam mundos por entre toda a maresia que lhes cabia dentro.
De repente disse:

 Vou partir. Não mais voltarei.

Fiquei sem saber o que dizer. Mas que se passara agora de um momento para o outro?
Deixei-me com ar de espanto e curiosidade tentando assim pedir uma justificação.
Respirou fundo e justificou-se:

É uma decisão difícil, sabes? Não queria abandonar-te, nem tão pouco ao espaço que tenho em ti. Queria ficar aí e não sair mas parece que há pouco espaço para mim. Não queria deixar de receber a cor nos meus lábios lívidos de ti, nem deixar de sentir o teu cheiro, ainda que apenas em pequenas quantidades de cada vez.

Encolhi os ombros, como, percebo agora, sempre fiz.
Que poderia eu dizer-lhe? Que gostava dela e a queria aqui embora tivesse medo de me arrepender? De me prender? De não corresponder às expectativas?
Ainda hoje, não sei o que mais me transtornava e impedia que lhe tomasse a mão na minha.

Ela continuou:

 Preciso compreender qual a minha dimensão e densidade. Entendes?
Arrisco-me a perder-te para sempre mas a não me perder a mim na totalidade. Uma parte de mim pertence-te e está a desvanecer-se aos poucos porque não é alimentada. É como o jardineiro que possui um jardim que não cuida nem rega. Por vezes algumas bagas de chuva saciam-lhe a sede mas não lhe basta para crescer vigoroso, depois o jardineiro olha o jardim e diz às suas plantas:

"Não posso continuar convosco. Não crescem, não me fazem sentir com vontade de vos cuidar. Ocupam-me tempo e prendem-me: estão sempre a pedir-me água, que abra frechas por entre a folhagem alta para sentirem o calor do sol, que remexa na terra para oxigenar as vossas raízes."

E o jardineiro não entende que as suas plantas apenas lhe pedem os cuidados básicos de quem precisa de ser tratado para crescer e poderem fazer feliz o seu jardineiro. – Calou-se por instantes, os seus olhos, não eram mais uma maré cheia, mas nascentes de rios revoltosos que lhe escorriam pelo pescoço em direcção ao peito. Continuou:

Por isso vou embora.

Saltou do muro e após calçar os chinelos partiu. Despediu-se com os três beijos que nos uniam e não mais olhou para trás.
Eu fiquei com o olhar preso ao seu cabelo ondulante no meio das costas e ao seu corpo curvilíneo que se bamboleava carregadamente como que ao som de um requiem.

Não mais soube dela.

ELA
Certo dia encontrou-me, estava eu sentada no muro do miradouro do monte, olhei-o de soslaio, abanei as pernas como quem simula ter vontade de se atirar para a imensidão da cidade.
Talvez ele o tenha pensado e tenha tido medo mas, como tantas outras vezes não se manifestou. Sentou-se ao meu lado e ficou ali.
Olhei-o e sorriu-me.
Desviei dele a cara mais seca que tinha, queria que sentisse que não suportava mais este sufoco, esta vontade de o ter e não o ter.
Tinha vontade de lhe bater, de lhe esmurrar o peito e ao mesmo tempo só queria que me tomasse nos seus braços.
Os meus olhos inundaram-se de uma mistura de amor, raiva e água.
Sabia que tinha de tomar uma posição e que devia mostrar-lhe que não estaria aqui para sempre, apesar de tudo o que sentia.
Disse-lhe:

 Vou partir. Não mais voltarei.


Ele ficou calado, com aquele ar de quem espera uma resposta, fiquei indecisa.
Apesar da vontade que tinha de me posicionar, aquele ar de curiosidade que se reflectia no seu rosto dava-me vontade de esperar que me implorasse uma explicação, pois bastava já de tentar adivinhar os seus pensamentos e sentimentos para conseguir comunicar.
Continuei. Falei-lhe de como era importante para mim, de como queria pertencer-lhe e que me pertencesse mais.
De como o desejava.
Não me disse nada.
Ficou com aquela cara imperceptível e ausente de sentimentos. Uma tristeza cavara-se no me peito e as lágrimas corriam a formar nele um lago.
Parecia não sentir nada por mim e aqui estava eu, na incógnita de ser ou não gostada.
Milhões de pensamentos surgiam em catadupa, desfaziam-me em pedaços inutilizáveis. Como podia ele ser tão contraditório nos seus aparentes sentimentos? Falei-lhe da importância que tenho e da necessidade de a compreender.
Usei uma metáfora de um jardineiro que quer as flores bonitas do jardim mas que não as cuida e que, mantendo-as presas a si sente no entanto o medo de ser por elas pressionado. Tentei mostrar-lhe que as barreiras que havíamos colocado eram produto dos nossos medos… Em vão.
As lágrimas escorriam-me até ao peito com maior intensidade.
Esperei um pouco e saltei do muro.
Beijei-o na cara, esperando alguma movimentação da sua parte e arrisquei num terceiro beijo, que se apresentou sem retorno.
Desci a calçada do monte esperando que, como nos filmes, corresse atrás de mim.
Chorava e sem olhar para trás fui andando pesadamente como quem vem de um funeral.
Sentia o meu corpo sem graça e nele guardava reservas de culpa do que acontecia.

Voltei a vê-lo.
Espreitava-o e ansiava que desse sinal de si.
Mas só o dava em mim.
Dentro.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Conta-me histórias.

Em tempos ansiava-se uma história
a ser escrita por autor incerto e personagens inesperadas,
poderia ser curta de um escritor iniciado, pequenino, de frases e palavras simples
ou longa, cheia de metáforas, antíteses e hipérboles, de um prosador ancião que a deixasse a transbordar por várias páginas.

Às personagens, tanto fazia o tamanho da história.
Ansiavam apenas que se escrevesse e isso bastava-lhes.

E depois de ansiar que as páginas se preenchessem,
depois da história ter sido escrita, re-escrita e apagada,
das personagens terem pedido para desistir e terem voltado a insistir,
o lápis com que era escrita ficou sem bico.

O autor, aflito busca um afia mas não o encontra.
As personagens dividem-se.
Uma reclama um final mesmo que não seja feliz, afinal nem sempre se podem escrever contos de fadas.
Outra, inerte, espera de braços estendidos que a história se desenvolva por si, mesmo sabendo que rumo gostava que seguisse.

O autor desiste e revela-lhes que está nas suas mãos continuarem a própria história.
As personagens afligem-se:
-Temos de ser nós a decidir? - dizem em sintonia- Mas nós só queríamos que nos dessem um final…

E deixam-se ficar.


FIM.

sábado, 17 de julho de 2010

Afinal é só poesia.

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Tempo. Pouco tempo. Mau tempo. No canal.